Ushuaia é, simplesmente, a cidade mais meridional do mundo. Em outras palavras, você está muito, muito perto da Antártida - são 800 km rumo sul até lá, e bem longe de Buenos Aires, que está a 3.600 km ao norte.
A região é famosa há séculos, pela suas características de topografia, vegetação, clima, animais, tudo muito diferente daquilo que se está acostumado. Unindo os oceanos Atlantico e Pacífico, até à construção do Canal do Panamá este extremo sul da América do Sul -conhecido como Terra do Fogo - foi a única ligação possível, por mar, entre as costas leste e oeste das Américas, e suas condições dificílimas de navegação já se tornaram lenda.
A cidade, portuária, está à beira do Canal de Beagle, e no pé de uma série de montanhas que, durante boa parte do ano, estão cobertas de neve. Entre estas montanhas está o Cerro Castor, a 26 km do centro da cidade, onde foi construído um belo centro de ski que, hoje, atrai turistas de todo o mundo - a localização tão austral de Ushuaia faz com que sua temporada de neve seja longa, e com grande garantia de neve em quantidade e boa qualidade.
Ushuaia é uma zona livre de impostos - e assim tem uma área do comércio que faz a festa dos visitantes : há mercadorias de todo o mundo, de todo o tipo, vendidas a preços realmente muito, muito baratos. São muitas quadras de lojas, e é quase impossível sair dalí sem um montão de sacolas cheias de coisas. Recebendo muitos visitantes de todo o tipo - a cidade vê chegar navios de cruzeiro sem parar, recebe turistas interessados na Patagônia & ecoatividades, recebe esquiadores & snowbordistas, alpinistas, trekkers, enfim muita gente - Ushuaia também tem uma boa quantidade de restaurantes legais, bistrôs, lojas de artesanato e galerias de arte .
Além de curtir a montanha e praticar ski & snowboard, há muito o que ver e fazer na região : visitas a parques, passeios de barco, excursões ao famoso Presídio desativado ( imperdível ) , museu do fim do mundo, observação de animais exóticos, etcetcetc.
O aeroporto de Ushuaia recebe vôos de aviões de grande porte - sua pista recebia os Concordes em seus áureos tempos – e a população da cidade é extremamente gentil e receptiva, convivendo com o turismo há décadas e, assim, sabendo da importância da simpatia como fonte de atração de pessoas.
LOCALIZAÇÃO
A cidade foi fundada em 12 de outubro de 1884, sobre as costas do Canal de Beagle, e é rodeada pelos montes Martial e Olivia, pertencentes à cordilheira dos Andes, e pelos férteis e belos vales glaciais.
Confira a localização no mapa:
Veja a seguir alguns comentários e curiosidades sobre a cidade & região:
CERRO CASTOR
O centro de ski do Cerro Castor, a 25km do centro, é o mais novo da América do Sul. Ele oferece ótimas condições para a prática dos esportes de neve. De acordo com o site oficial do cerro, existem projetos para ampliação do número de skilifts (meios de elevação) e de pistas, tudo para dar mais opções e conforto aos amantes da neve.
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HOTELARIA E SERVIÇOS
Possuidora de um porto livre, tem intenso comércio isento de impostos, e conta com uma boa rede hoteleira, restaurantes típicos e alternativas de lazer.
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LAZER E GASTRONOMIA
PRATOS TÍPICOS
Lá é a terra dos king crabs, aqueles caranguejos gigantes das águas geladas, que você devora dando porradas com um martelo de madeira. Uma refeição/hobby ideal praqueles dias de ira/fome....se é que alguém já passou por isso... A cidade apresenta ainda pratos tradicionais como a merluza-negra, os mariscos, os pescados e também o assado de ovelha da Patagônia.
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ATRATIVOS CULTURAIS
A prisão no fim do mundo (Cárcel del Fin del Mundo),é uma das principais atrações de Ushuaia onde tem um museu chamado Museo del Presidio, com estátuas de cera dos criminosos que estavam presos por lá. Também é o lugar do curioso Trem do Fim do Mundo "Ferrocarril Fueguino austral" ou "El Tren del Fin del Mundo".
ATRATIVOS NATURAIS
Se no verão Ushuaia lhe oferece a possibilidade de praticar esportes como trekking, navegação, pesca e bicicleta, no inverno a galera aproveita para esquiar ou praticar o snowboard! Um catamarã (tipo de embarcação) leva os turistas para uma volta nas águas geladas que separam a ponta da américa do sul da antártida, logo ali pertinho. E o Farol do Fim do Mundo marca o ponto de retorno do passeio: a partir dali existem apenas água e gelo. Um ponto muy interessante... Bueno, além dele, há centenas de focas, leões marinhos, lobos-marinhos, gaivotas, pelicanos, andorinhas...
Por falar nisso, perto de Ushuaia, na cidadezinha de El Calafate, existe uma imponente massa de gelo chamada "Glaciar Perito Moreno". Um presente da natureza que se faz impressionante e inesquecível para seus visitantes.
OUTROS ATRATIVOS
Museu do Fim do Mundo: é dedicado aos povos indígenas, à natureza, à historia local e aos naufrágios ocorridos nas proximidades da cidade.
Trem do Fim do Mundo: antigamente, os presidiários eram transportados de trem para fornecer lenha à população. Hoje, é utilizado para resgatar a história da Patagônia. O ponto de partida do passeio histórico é a Estação do Fim do Mundo, localizada a 8 Km de Ushuaia. Durante o trajeto, são vistas florestas antigas, turfeiras, rios e a reconstrução de um assentamento nativo. Faz-se uma parada na cascata Macarena e a última parte do passeio é feito dentro do Parque Nacional da Terra do Fogo.
Mergulho em Ushuaia: as águas da região são cristalinas e ótimas para o mergulho, mas a melhor época para realizá-lo se encontra entre os meses de março a dezembro, já que a atividade solar permite uma visibilidade que supera os 15 metros. A temperatura da água varia de 0 a 4°C.
Canal de Beagle: separa as ilhas do extremo sul do continente da Terra do Fogo, no extremo da América do Sul. Marca também a fronteira entre o Chile e a Argentina. Pode-se navegar pela região, partindo do porto de Ushuaia, em visita a várias ilhas pelo caminho, como a dos Pássaros, Alicia, Bridges e Redonda, onde se avistam lobos marinhos, pingüins magalhânicos, cormoranes e outras aves marinas. Preferencialmente no verão se chega à estância Harberton, onde viveu o primeiro homem branco na Terra do Fogo.
Parque Nacional da Terra do Fogo: é o mais austral do continente, com 63 mil hectares. Ocupa 6 Km do Canal de Beagle e faz divisa com o Chile. A fauna é composta de guanacos, raposas vermelhas (típicos), castores canadenses e coelhos. O parque encontra-se localizado a 11 km de Ushuaia, é o único da Argentina que possui costas para o mar. Ele tem admiráveis vistas de lagos, florestas e turfeiras para todos os amantes da natureza. A partir de Ushuaia, é possível realizar atividades como o trekking e passeios de caiaque pelo Rio Lapataia, de águas tranqüilas e transparentes. Nas excursões pelo Canal de Beagle são avistados lobos marinhos, pingüins magalhânicos e cormoranes.
Parque Nacional Lapataia: está a 18 Km de Ushuaia. Foi criado em 1.960 para proteger a porção mais austral de bosques subantárticos. No parque, é possível caminhar até o Canal de Beagle, pela Bahia Ensenada. A outra via de acesso é pela Bahia Lapataia, a mais utilizada pelos turistas.
Cerro Castor: encontra-se a 26 Km de Ushuaia o centro de esqui mais austral do mundo e o que tem a temporada de neve mais extensa da América do Sul. Possui mais de 19 pistas e está localizado a 195 metros sobre o nível do mar e alcança em seu cume 1.057 metros.
Cuevas del Alvear: localizado a 26 Km de Ushuaia, é um dos cerros mais emblemáticos dos Andes fueguinos, por ser uma das elevações de maior altura da parte argentina e por que o seu cume é quase plano, coroado de gel e neve durante o ano todo. Apesar de próximo à cidade, é um lugar agreste e solitário, que guarda muitas surpresas, como guanacos em bandos, condores e o zorro colorado.
Paso Garibaldi: mirante de onde se vê o lago Fagnano e o lago Escondido.
Lago Escondido: localizado a 60 Km de Ushuaia, encravado na cordilheira, ao pé do Paso Garibaldi, oferece uma paisagem impressionante. Para se chegar, são percorridos 36 Km de um caminho composto de pedras roladas. Na região do lago, pode-se fazer caminhadas pelas montanhas e pescar.
Lago Fagnano: localizado a 100 Km ao norte de Ushuaia, é dividido entre a Argentina e o Chile. Era chamado de "descanso do horizonte" pelos nativos, porque a linha imaginária do horizonte onde está a cordilheira dos Andes é interrompida pela linha formada pela superfície do lago. É um espelho d´água impressionante. É reconhecido internacionalmente pela pesca de trutas e salmão.
Lago Yehuin: está a 160 Km ao norte de Ushuaia, em um local privilegiado para se praticar pesca esportiva, navegação, cavalgadas, trekking e mountain bike.
Glaciar Martial: a 7 Km da cidade, constitui a fonte de água potável mais importante de Ushuaia. Durante os meses de inverno, no monte Glaciar Martial funciona um Centro de Esqui. Do teleférico, tem-se vista para o Glaciar, Ushuaia, Canal de Beagle e da Ilha Navarino, no Chile.
Valle Tierra Mayor: localizado a 22 km de Ushuaia, é o centro de esqui mais completo da região, sendo pioneiro na prática e aluguel de wind-ski e motos-trenó. Também é possível realizar caminhadas.
Confira aqui mais dicas que o Point da Neve te dá para passeios em Ushuaia
HISTÓRIA
Os primeiros desbravadores destas terras chegaram a pé ao que é hoje a Ilha Grande (ou Isla Grande, em espanhol), há mais de onze mil anos. Foram caçadores nômades que vieram do norte, dispostos a sobreviver com os recursos naturais de um espaço que ainda se mantinha conectado à Patagônia Continental. Tempos depois, chegou uma segunda onda de desbravadores nômades; estes últimos vieram navegando, de ilha em ilha, desde o arquipélago ocidental da Patagônia.
Milhares de anos fizeram com que as águas oceânicas causassem a erosão de uma parte considerável do continente. Violentos movimentos terrestres geraram essa divisão continental, formando uma grande ilha e um passo inter-oceânico.
O homem europeu só conheceria a Ilha Grande da Terra do Fogo e o Estreito de Magalhães bem mais tarde. Em meados de 1520 a expedição de Fernando Magalhães ao Sul da América do Sul rendeu as primeiras descrições da Terra do Fogo.
Durante a travessia, os navegantes espanhóis observaram fogo e fumo sobre a costa setentrional, e em virtude disso batizaram a ilha como Terra do Fogo (ou Tierra del Fuego, em espanhol). Com o tempo várias expedições européias permitiram um contato mais direto entre o homem branco e os aborígenes.
Uma missão de pastores anglicanos, dirigida por Thomas Bridges, instalou-se na zona do Canal de Beagle em 1869, formando o primeiro assentamento europeu no que compreende, atualmente, o território do departamento de Ushuaia.
A cidade foi fundada em 12 de outubro de 1884, sobre as costas do Canal de Beagle, e é rodeada pelos montes Martial e Olivia, pertencentes à cordilheira dos Andes, e pelos férteis e belos vales glaciais.
À medida que o homem branco avançava sobre o território, a vida dos indígenas ia sofrendo gravíssimas perturbações. De vários pontos da ilha, inclusive de Ushuaia, partiam bandos de mercenários contratados por fazendeiros, com o consentimento das autoridades, para exterminar a população aborígene. Já em 1930 quase toda a população aborígene havia desaparecido.
No início do século XX foi construído nas proximidades da então aldeia de Ushuaia o célebre Presidio de Ushuaia, que funcionou de 1902 a 1947. Posteriormente passou para as mãos da Marinha da Argentina e, após um longo tempo de abandono, foi transformado em um museu, o Museo del Fin del Mundo. O museu exibe, entre outras curiosidades, a linha de ferro mais austral do mundo, que conduzia os presos do Presidio de Ushuaia aos campos de trabalho situados no atual Parque Nacional Tierra del Fuego. Recentemente a linha de ferro foi reativada com propósitos turísticos, conectando o terminal, situado no parque nacional, com a Baía de Lapataia.
GEOGRAFIA
O clima de Ushuaia é frio, em virtude do que a vegetação da região é quase exclusivamente a tundra, com uma temperatura média anual de 5,7 º[Celsius] e uma pequena oscilação anual que vai de 1,5 ºC em julho a 9,4 ºC em janeiro. O volume das precipitações na região gira em torno de 524 mm anuais e se divide equitativamente ao longo do ano.
Ushuaia encontra-se a 250 km sudoeste de Rio Grande, outra importante cidade da Terra do Fogo. Ambas as cidades estão unidas pela Rota 3 que termina na Baía de Lapataia.
Ushuaia conta com boa infra-estrutura hoteleira e gastronômica, onde são servidos pratos tradicionais da região como a centolla, a merluza-negra, os mariscos, os pescados e também o assado de ovelha da Patagônia.
Fonte: pt.wikipedia.org
USHUAIA: Conhecer a cidade mais austral do planeta, todas suas atrações históricas e naturais, seus excelentes restaurantes típicos, e ainda curtir uma moderna estação de ski e snowboard...
Não tem como não gostar!!!
REPORTAGEM
O Point da Neve dá a dica para quem gosta de Ushuaia. Na edição de fevereiro de 2008 da revista "Viagem" da editora abril tem uma reportagem muito boa sobre a região. A repórter Lúcia Monteiro narra a viagem que realizou aos dois pontos extremos da Argentina, norte e sul. Na parte que nos interessa (a neve, é claro), ela fala sobre Ushuaia e arredores. A matéria traz dicas, sugestões de atividades e passeios e diversas opções gastronômicas típicas para saborear. Vale a pena ler! É um grande estímulo para quem está pensando em ir pra lá e um ótimo aperitivo para quem já está embarcando!!!
Argentina - Tierra de contrastes
Por: Lúcia Monteiro
São 7 da manhã, e as ruas de Puerto Pirámides estão vazias. A maior parte dos turistas se hospeda em Puerto Madryn, a 100 quilômetros dali, e só chega mais tarde, por volta das 9. Sentado numa cadeira de praia, o senhor rechonchudo de boina preta e barba branca parece ser o único habitante do vilarejo, que ofi cialmente tem 300 moradores. Ele se chama Mariano van Gelderen, nasceu há 62 anos em San Isidro e é o "baleeiro" mais experiente do pedaço. Ancorou sua lancha na entrada da Península Valdés no início dos anos 1970. Na época, o lugar vivia da exploração de sal e da agricultura. Não se tinha notícia de baleias, e a idéia dele era ganhar a vida com a pesca. Em 1973, ele viu quatro fêmeas com seus filhotes nas águas do Golfo Novo, na costa sul da península. A caça às baleias havia sido proibida, e seu número começava a crescer. Van Gelderen foi guia do oceanógrafo francês Jac ques Cousteau em suas expedições pela região e, depois disso, especializou-se na observação de baleias, atividade que requer bons binóculos, paciência e intuição. Hoje é dono da Hydrosport, uma das seis empresas do pedaço especializadas em mostrar baleias a turistas. Assim que o sol esquenta, ele deixa de ser um Popeye solitário e ganha a companhia de centenas de estrangeiros, vindos sobretudo da Europa. Entre junho e dezembro, quando a baleia-franca-austral percorre a costa sul da península, até 5 mil pessoas vestem colete alaranjado todos os dias e embarcam em passeios que duram cerca de uma hora, custam 80 pesos e mostram, além da atração principal, pequenas baías onde vivem gaivotas e leões-marinhos. Situada em Chubut, uma das cinco províncias que formam a região conhecida como Patagônia, a Península Valdés, a 1 500 quilômetros de Buenos Aires, é considerada desde 1999 Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
Depois de uma cirurgia cardíaca no ano passado, Van Gelderen deixou de navegar. Baleeiros jovens substituíram-no na tarefa. Mas ele ainda passa horas e horas a olhar o mar com cara de quem está entendendo tudo. O calendário indicava 12 de dezembro, fim da alta temporada: as tarifas dos hotéis baixaram e a presença da maior estrela não estava mais garantida naquelas águas. Numa caminhada pela praia ao alvorecer, eu havia visto duas listras pretas que apareciam e desapareciam no mar.
- Seriam baleias, seu Mariano?
- Puede ser.
- Mas elas não foram embora?
- Puede ser.
- E vocês continuam fazendo o passeio?
- Se não houver baleias, devolvemos la plata.
- Para todo mundo?
- Por supuesto.
A lancha Mimosa 2 navegou por 40 minutos, em diferentes direções, e nada de baleias. Estávamos quase conformados, meus 46 compañeros de barco e eu, em voltar para terra sem nenhuma aparição. Afinal, vimos simpáticos leões-marinhos e gaivotas em vôo elegante, mas já pensávamos que poderíamos pedir o dinheiro de volta. De repente, suspiros. Todas as máquinas fotográficas se voltam para a direita, onde se vê uma mancha negra embaixo d'água. O guia pede calma para que a embarcação não vire. A primeira fila deve sentar-se, a segunda fica em pé e a terceira sobe nos bancos. Depois o marinheiro contorna a baleia e o posicionamento se inverte para que todos os passageiros possam vê-la de perto. O senhor austríaco com sua Canon automática cutuca a dona da Nikon profissional com imponente lente teleobjetiva que lhe impede a visão. Mãe e filho passam por baixo do barco, nadam ao redor, mostram cabeça e cauda, mergulham e voltam à superfície jorrando água pelo buraquinho das costas (o orifício dorsal serve para trocar o ar dos pulmões). Depois de meia hora e centenas de cliques, a Mimosa 2 deu meia-volta rumo ao continente. O espetáculo havia sido difícil o suficiente para emocionar a platéia. Uma salva de palmas aos dois tripulantes. Na volta, competição para descobrir quem tinha as melhores fotos. E não é que o zoom do austríaco era mesmo poderoso?!
Em agosto e setembro, as baleias-francas ficam pertinho da praia. Imagine como é se hospedar no Hotel Las Restingas, o único de frente para o mar em Puerto Pirámides, e, ao abrir as cortinas do quarto, dar de cara com uma delas? Durante esses dois meses, é possível admirá-las mesmo em Puerto Madryn, cidade que concentra a maior infra-estrutura hoteleira da região e, por isso, serve de base para conhecer a península, onde há poucos hotéis e restaurantes. Até pouco tempo atrás, a vida em Madryn era um marasmo. O clima extremamente árido desencorajava o povoamento da zona - a chuva atinge cerca de 200 milímetros cúbicos por ano, e a principal fonte de água potável é o Rio Chubut, que passa a 60 quilômetros dali. A cidade contava 3 mil habitantes até 1970, quando foi inaugurada uma fábrica de alumínio. Com a brutal desvalorização do peso, em 2001, ganharam espaço a pesca (de polvo, merluza e lagosta, sobretudo para exportação) e, claro, o turismo. Puerto Madryn mudou de cara e de hábitos. Chegaram argentinos de outras regiões, e a população saltou para 85 mil pessoas. Ruas de terra foram asfaltadas, e pipocaram restaurantes, lojinhas e empreendimentos turísticos de primeira linha, como o hotel-butique Territorio. Inaugurado em 2006 por um grupo de Buenos Aires, tem 36 apartamentos com banheira, aquecedores de toalha, cama king-size e temperatura ambiente regulada por controle remoto. A maior atração é a vista para o mar (e, com sorte, para as baleias...). Ainda em construção, o primeiro cinco-estrelas de Madryn tem abertura prevista para junho.
O baleeiro Mariano van Gelderen, o empresário Gustavo Walter, a estudante Guadalupe Coll, o dono de albergue Gastón Wynne e todos que encontrei em Madryn eram forasteiros. Eles se cumprimentam com dois beijinhos, sorriem à toa e não reclamam de dirigir horas a fio, em estrada de cascalho, sob sol forte - e bem devagar para não atropelar nenhum espécime da rica fauna local. Nas longas estradas da Península Valdés (são 400 quilômetros só de litoral), transitam bichos característicos da Patagônia, como mara (roedor de pernas longas), guanaco (que lembra o lhama) e peludo (tatu com pêlo), além de espécies importadas, como ovelha e coelho. Estes últimos multiplicaram-se como praga, de maneira quase tão surreal quanto o conto do argentino Júlio Cortázar em que o personagem regurgita coelhos sem parar. No extremo leste da península se localiza a Punta Delgada, refúgio de elefantes-marinhos, tipo de foca que deve o nome à tromba que exibe a partir dos 3 anos de vida. Quem se hospeda no Hotel de Campo Faro Punta Delgada ou na Estância Rincón Chico fica mais perto deles. Durante o período em que trocam de pele (cerca de um mês, em dezembro), os elefantes-marinhos vivem paradões, na maior boa vida. "Eles não se alimentam quando estão na praia e, para economizar energia, evitam qualquer movimento", explica Guadalupe Coll, estudante de biologia marinha responsável pelos passeios com os hóspedes da Rincón Chico. Para não assustá-los, andamos agachados, em silêncio. A Península Valdés é extensa (3 600 quilômetros quadrados) e pouco populosa. Por isso, mesmo com o forte aumento do número de visitantes nos últimos anos (de 66 mil pernoites em 2001 para mais de 200 mil em 2006), passear por ali ainda tem o gostinho de percorrer trilhas inexploradas - experiência pouco provável em Buenos Aires.
Se você esteve na capital argentina há pouco tempo, sabe que os brasileiros invadiram a cidade. O risco de esbarrar em conterrâneos é certo em San Telmo, no Caminito e nas lojas da Calle Florida. Ouve-se português o tempo todo. Afinal, a cidade concentra a maior parte dos brasileiros que visitam o país - e não são poucos. Mais de 400 mil só no ano passado. Desse total, menos de 20% se aventuram pelas maravilhas que não ficam às margens do Rio da Prata. Assim, é hora de rumar para o norte e/ou o sul do país. Boa notícia para quem não quer nem ouvir falar do Corinthians, da Ivete Sangalo e de transplantes de cabelo na cabeça de políticos: quase não esbarramos em conterrâneos ao longo dos 12 dias de viagem desta reportagem. Percorremos os dois extremos da Argentina. Não ouvi português em nenhum dos três dias que passei na região de Salta, no norte, e na Península de Valdés, no sul. Os brasileiros só começaram a aparecer mais abaixo, em El Calafate e em Ushuaia, as duas últimas cidades de nosso trajeto - mas mesmo ali éramos minoria. Predominavam canadenses, suíços, alemães, chilenos e... argentinos.
O clima particular (ensolarado e árido no norte, frio e com fortes ventos no sul) e a distância da capital mantiveram esses lugares praticamente isolados por muito tempo. Hoje, porém, tanto a região de Salta, perto da fronteira com a Bolívia, quanto a Patagônia Austral (ao sul de Bariloche, formada pelas províncias de Chubut, Santa Cruz e Terra do Fogo) não cessam de atrair estrangeiros e argentinos de espírito desbravador.
O norte está entre as zonas mais pobres do país e é menos explorado pelo turismo. As operadoras que vendem pacotes para lá costumam hospedar os turistas em Salta - a cidade concentra alguns bons hotéis e 137 agências de turismo, responsáveis por excursões pelas províncias vizinhas Jujuy e Tucumán, além de ser interessante do ponto de vista cultural e histórico. A arquitetura colonial é o que mais chama atenção em Salta, fundada em 1582. Observe como fica bonito à noite o Convento de San Bernardo, do século 16. Durante o dia, visite o Cabildo, antiga sede do governo municipal, atual Museu Histórico del Norte, e a catedral, erguida no século 19 para abrigar uma imagem de Nossa Senhora, a Virgen del Milagro, que, acredita-se, conseguiu parar o terremoto que arrasou Salta em 1642. A cidade é também conhecida por sua gastronomia, de tradição indígena. No inverno, prove o consistente e saboroso locro, uma espécie de feijoada à base de milho, feijão-branco, carne de porco e de boi, servido como sopa, sem arroz nem farofa. Mas são as empanadas salteñas que detêm a maior fama. Só levei a sério o apelido da iguaria - "empanadas pernas abertas" - quando a primeira gota do recheio manchou minha saia. O molho suculento e a carne picada com faca (e não passada no moedor) são as principais características das salteñas. Salta vale um ou no máximo dois dias de sua viagem. Se a idéia é conhecer bem o norte argentino, o melhor é fazer um roteiro linear: pouse em Jujuy, passe por
Salta de carro e decole de Tucumán. No caminho, você vai encontrar as maiores jóias da região: a Quebrada de Humahuaca e a Quebrada de Cafayate. Quebradas são na verdade cânions. Nos dois casos, trata-se de vales esculpidos por rios formados por águas de degelo vindas da Cordilheira dos Andes. Parece improvável que o magro filete que vemos correr entre os rochedos vermelhos, verdes e acinzentados tenha sido responsável por lapidar aquela imensidão toda. O tempo e o vento contribuíram para desenhar o cenário, ao longo de milhares e milhares de anos. Foi a erosão eólica que desenhou o Anfiteatro, concha acústica natural entre Salta e Cafayate, ponto de encontro de vendedores de artesanato, ônibus de excursão e músicos. Sim, aqueles mesmos com flauta, tambor e violão. Eles não são bolivianos nem peruanos, mas argentinos mesmo, de origem indígena. Há diversas etnias na região. A Quebrada de Humahuaca foi ocupada por povos pré-hispânicos desde 10000 a.C. Em Tilcara, o sítio arqueológico conhecido como Pucará tem resquícios de uma fortaleza que pertenceu aos incas e prosperou entre os anos 1000 e 1480. Lá viveram 5 600 índios pucaras. Hoje a paisagem é dominada por cactos milenares de até 6 metros de altura - os cardones. De lá, rume para a pequena Purmamarca, cidadezinha em que o vermelho das montanhas se mistura às paredes das casas e às ruas de terra. Tapetes e casacos de lã tecidos artesanalmente por comunidades indígenas acrescentam colorido. Por que não fugir do óbvio e hospedar-se ali? A recém-aberta pousada Los Colorados é a campeã no quesito charme. Os donos explicam o estilo com o adjetivo "mediterrâneo", mas quem determina as linhas e as cores é mesmo a geografia local. Sua construção irregular no mesmo tom da montanha parece, por essa razão, emergir naturalmente dela. Tem sete cabanas bem equipadas (TV, DVD, cozinha, sala, aquecimento central, lareira, varanda e hidromassagem). Depois de Purmamarca, a próxima parada é Humahuaca. Mais interessante que a Igreja da Candelária é observar a população da etnia quíchua vendendo artesanato nas ruas. Com a filha amarrada nas costas por um manto vermelho, Nicolasa oferecia broches de lã por 1 peso. Comprei três. Quando Abigail, de 12 anos, propôs a mesma mercadoria, ensaiei uma esquiva. Ela saiu-se com uma paródia de um verso tão conhecido por lá quanto "Batatinha quando nasce" por aqui: "En la punta de aquel cerro Hay una planta de albahaca Si usted no me da la propina No se va de Humahuaca".
Preciso dizer que levei mais um brochinho para casa? Antes de seguir viagem, não se acanhe de experimentar folhas de coca, vendidas em saquinhos plásticos pelos locais, que costumam mascálas para minimizar os efeitos da altitude. O desconforto causado pelo ar rarefeito (tontura, enjôo, dor de cabeça) provavelmente será sentido ao cruzar a Puna de Jujuy, a 4 mil metros de altitude, para chegar a Salinas Grandes, um lago salgado de 12 mil hectares de onde se extrai sal - é possível caminhar sobre ele e ver os trabalhadores em ação. Em Cafayate, descubra as bodegas, que têm conquistado prestígio graças à uva torrontés, símbolo da região. Ela produz vinhos brancos frutados - "os mais expressivos da Argentina", na opinião do músico e enófilo Ed Motta. A imersão completa inclui os sorvetes de vinho da sorveteria Miranda (nos sabores branco e tinto; prove os dois e observe a suave dormência na língua e nos lábios) e o wine-spa do Hotel Patios de Cafayate, luxuoso palacete cercado pelas vinhas da tradicional bodega El Esteco, um oásis de conforto no deserto.
No extremo oposto do país situa-se Ushuaia (pronuncia-se "ussuaia", já que o "h" é mudo em castelhano), que tem o duplo aposto de cidade mais austral do globo e fim do mundo. Ali, também é com o requinte dos hotéis e restaurantes que se combate o clima inóspito. No livro Na Patagônia, relato de sua viagem pelo extremo sul da América, o inglês Bruce Chatwin diz que os moradores "daquela cidade aparentemente sem crianças tinham o rosto azulado de frio e encaravam as pessoas de fora com bem pouca cordialidade". De 1977, quando o livro foi lançado, até hoje, muita coisa mudou. A temperatura continua baixa (os termômetros indicam uma média de 4 graus no inverno e 13 no verão), e o céu vive nublado. Quanto à simpatia dos habitantes, pode-se dizer que a situação melhorou.
De óculos escuros e costeletas à la Elvis Presley, Ruben Jofre, de 26 anos, comanda excursões pelo Canal Beagle (cujo nome foi emprestado do navio inglês que transportou o naturalista Charles Darwin pela região). A bordo do catamarã Elisabetta, ele comunica-se com os passageiros em espanhol, inglês e português e conta piadas para "quebrar a monotonia. Sabe como é, faço o mesmo trajeto todo dia". Mostra leões-marinhos, cormoranes (aves parecidas com o pingüim, mas que, diferentemente dele, conseguem voar) e gaivotas que vivem ao redor do Farol Les Éclaireurs, batizado pelo explorador francês Louis Martial. No caminho de volta, ele coloca o documentário A Marcha do Imperador na TV do barco. O pingüim-imperador, que aparece no filme, vive apenas na Antártica. Em Ushuaia, vêem-se os de-magalhães, os mesmos encontrados na Península Valdés, na Punta Tombo e na costa sul do Brasil. As duas espécies têm em comum a necessidade de percorrer centenas de quilômetros em busca de alimento para as crias, enfrentando as piores intempéries no caminho: neve, predadores, fome. O filme ajuda a entender como deve ser difícil (para qualquer ser vivo) sobreviver num ecossistema tão extremo quanto aquele. Os únicos que não se incomodam são os castores - importados da Europa na época em que a pele servia para fazer casacos, eles se multiplicaram como os coelhos da Península Valdés (e do conto de Cortázar) e causam estragos: roem árvores, inundam bosques e colocam outras espécies em risco.
O porto de Ushuaia vive cheio. Todos os dias zarpam e atracam navios com até 4 mil pessoas. Por causa disso, as ruas íngremes estão sempre movimentadas, assim como as lojas de eletrônicos (tratase de zona franca, ou seja, nada de imposto) e os restaurantes. Hotéis de primeiríssima linha surgiram para atender os passageiros que esperam o dia do embarque para cruzeiros à Antártica. Um dos mais exclusivos é o Finisterris Lodge - suas três cabanas com vista para o canal têm hidromassagem, lareira e sauna. Bons restaurantes, como o Chez Manu e o Gustino, servem cordeiro e centolla, um saboroso caranguejo gigante (ou king crab), além de vinhos patagônicos, da região de Neuquén.
Ainda assim, a cidade guarda um clima de faroeste, nostalgia da época em que o mecânico Leonardo Redi chegou à cidade pilotando seu Ford Falcon 1970. Nascido em La Plata, ele resolveu aventurarse em Ushuaia há mais de 20 anos, em função dos incentivos do governo, que queria povoar a região e garantir a soberania. Nada de impostos, moradia fácil, trabalho promissor, tranqüilidade... Lá estava ele. "Quando cheguei, isto aqui era uma aldeia", diz. Para relembrar a calmaria dos velhos tempos, Redi foge para o Parque Nacional Terra do Fogo em seus dias de folga. Acampa, faz churrasco e aproveita da proximidade da natureza. O Trem do Fim do Mundo, que corta o parque, refaz o trajeto dos prisioneiros da cidade, levados à floresta para cortar lenha. Quem quer adrenalina prefere o passeio de 4x4 pelos lagos Escondido e Fagnano, oferecido por diversas agências. Carlos "Chincho" Romero, o motorista, adora lama: não perde uma poça d'água - até porque depois enfia a Land Rover no lago para limpar. No final, prepara um café da montanha (com chocolate e conhaque) numa fogueira improvisada.
Viajar por Ushuaia e El Calafate não é a mesma pechincha que em outras partes da Argentina. O afluxo de turistas americanos e europeus elevou os preços - nada custa menos de 30 pesos (ou 10 dólares). El Calafate, cidade de veraneio do casal presidencial Kirchner, vive em função do turismo. Pudera: detém a maior beleza natural do país, uma coleção de glaciares de arrancar o fôlego. O Perito Moreno (veja infográfico na pág. oposta) é o mais acessível. Seu nome homenageia o explorador (e perito) Francisco Moreno, que estudou a região no século 19 e contribuiu na delimitação da fronteira com o Chile. Num minitrekking de uma hora, os visitantes marcham sobre o gelo, ajudados por grampos instalados em botas ou tênis comuns. Quem tem mais fôlego prefere o trajeto conhecido como Big Ice, de sete horas. Os dois roteiros (não recomendados para mulheres grávidas) são organizados pela agência Hielo y Aventura. Num e noutro, o clima muda de repente. Sol, chuva fina, vento, frio... Ninguém reclama, pois surpresas maiores (e não de ordem meteorológica) roubam a cena: grutas azuis, pequenos riachos e abismos assustadores surgem ao longo da caminhada, como presentes. Depois de retirar os grampos dos calçados, reserve uma hora para observar o glaciar da passarela de madeira. Você verá um bloco de gelo desprender-se da geleira e cair com força no lago, acompanhado de forte estalo - uma emoção e tanto. Minutos depois, outro estrondo. O bloco de gelo que acabara de afundar agora emerge do fundo do lago. Na hora de ir embora, dá vontade de falar em voz alta "Un gusto", expressão que os argentinos usam para despedir-se de quem acabaram de conhecer, algo como o nosso "Foi um prazer".
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