Beto Valle - LA NOCHE - Point da Neve

Portillo

Beto Valle – LA NOCHE
Portillo

LA NOCHE

Não me lembro qual era o ano… mas eu estava no Chile, com meu potente Gol’84, rodando as estações de ski da América do Sul desde a metade de Junho, e havia recebido um grupo de clientes para a semana do 7 de Setembro, no Valle Nevado. O pessoal voltou ao Brasil no Sábado, depois de uma skiweek espetacular – este período do ano é quase sempre de sol & dias azuis, e a neve estava acumulada aos metros – e eu havia sido convidado para um jantar em Portillo, com muito ski programado para o Domingo.

Passei a manhã esquiando no Valle, provei um dos primeiros snowboards da história e arrumei correndo minhas coisas para subir a cordilheira com o Mussents (este era o nome oficial do Gol’84). Saí pelas três da tarde, descí para Santiago, atravessei a cidade e seguí rumo a Portillo, seriam apenas 160 km e o dia seguia soberbo.

Mas… estamos hablando de Andes, e alí, as coisas podem mudar – muito, e rapidamente.

Faltavam poucos quilômetros para chegar, eu já havia passado pelo menos por dois dos túneis abaixo da pista “juncallillo”, quando começou uma nevasca. Aliás, A nevasca. Visibilidade zero, impossível prosseguir por um metro, parei o mussents no que eu imagava ser o acostamento, pisca-alerta ligado, preocupado em estar parado naquele lugar, estrada internacional, cheia de caminhões, etcetc. Mas não havia outra solução, e fiquei esperando a coisa passar.

Só que não passou. Nevava sem parar, era como estar num lava-jato, sem saber quando iria terminar o tempo da fichinha. A luz foi terminando junto com o dia, o frio era cada vez maior e a noite chegou – nevando e nevando.

Acendí a velinha-salva-vidas (princípio do Iglú, dica do Point da Neve aos motoristas da neve…), comecei a colocar mais e mais roupas e mantas, luvas, gorro, e fiquei lendo uma revista na chaminha da vela, tentando esquecer o pepino em que me encontrava. O tempo foi passando, a revista acabou, comecei a reler os trechos mais interessantes… e a neve batendo, o mussents tremia todo a cada rajada maior, eu tentando me sentir confiante e tranquilo, mas, de verdade, cada vez mais assustado.

De repente, virei para o lado e meu coração, acho, deve ter parado uns, mmm, 20 segundos de bater, de susto: a neve estava na janela do carro, uns dois dedos acima do batente da porta. Eu sabia que aquele trecho da estrada era complicado, que caminhões eram soterrados e ficavam semanas até poderem sair, e lá estava eu, num golzito, com neve na janela – e subindo.

Fiquei literalmente apavorado. Comecei a pensar nos planos A, B, C etc, e tudo me parecia uma enorme complicação, incluindo morrer soterrado, ou de frio, ou atacado pelo abominável homem das neves, sufôco geral. A porta já não abriria mais, e a melhor alternativa parecia sair pela janela, subir no teto do carro, e ir ” subindo junto com a neve ” e comecei a me preparar para a empreitada.

E… o bom Deus mudou de idéia. Em poucos segundos a nevasca parou, e apareceu no para-brisas uma noite incrivelmente limpa e estrelada, o cruzeiro do sul cintilando na minha frente, nenhum vento, tranquilidade absoluta.

Agradecí a todos os santos, anjos e arcanjos, fiquei mais um tempo acordado para ter certeza de que o problema havia passado e dormí como um frade, cercado de neve por todos os lados.

Acordei com uma manhã de sol radiante, meu carro enterrado até a metade das janelas, nada a fazer senão esperar socorro, que acabou chegando bem rápido, uma patrola enorme, com chilenos simpáticos e prestativos, que tiraram a neve da frente do carro e me rebocaram por uns 5 km, até à entrada de Portillo – o carro ia como ski-na-água, o cabo puxando e ele indo de um lado para o outro.

E tudo terminou com uma bela esquiada nas pistas de Portillo, neve fresquinha e powder, dia de sol, amigos e alegria – final feliz para uma noite que jamais esquecerei.

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