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Bariloche

Beto Valle – JORGE CEJAS
Bariloche

JORGE CEJAS

Bariloche / 1978

Os skis, nesta época, eram bem precários… já eram de fiberglass, mas eram grossos, pesados, duríssimos; as fixações de segurança estavam apenas começando, e cair representava sempre um enorme risco de ver a perna virar helicóptero. Mesmo.

Como sempre aconteceu, já havia diversos tipos de equipamento para alugar – os standards (sempre ruins e velhos), os esportivos (que já foram bons, e serão os standards da próxima temporada) e os demos – ótimos, novos, e caros paca. Como também sempre aconteceu, eu estava esquiando por lá em Agosto, hospedado numa pensão chamada “Residencial Roschek”, na parte da cidade onde os turistas não vão, e guardava cada peso para poder pagar os skilifts, o ônibus, a comida, a tal pensão – e o equipamento que, claro, acabava por ser o mais standard possível, para minha total tristeza.

Depois de uma semana lutando com um par de Rossignol de um palmo de largura, com a flexibilidade do granito, com cantos que pareciam um serrote com problemas e fixações com folga, eu estava desesperado. Não havia forma de progredir assim, eu me matava em exercícios e tentativas, mas era como pilotar uma Kombi em um autódromo.

Pois aí conhecí o Jorge Cejas. O Jorge era instrutor de ski em Bariloche, chefe da equipe de demonstração argentina, ex-atleta olimpico – e fazia do ski na neve algo realmente bonito de ver. Seguidor do estilo Stein Eriksen – pernas juntas, movimentos de todo o corpo durante o processo de tomada, desenvolvimento e finalização de curva, o cara esquiava maravilhosamente bem, com uma facilidade incrível, sem esforço algum.

Eu já era fã do Stein Eriksen, buscava seguir seu estilo, e ví no Jorge o mestre que eu precisava.

Fui falar com ele, contei dos meus planos e da minha precária situação financeira, e… o Jorge Cejas me deu aula uma semana, várias horas por dia, num treinamento-ninja; mais, à noite, em sua casa, com sua esposa Suzana e suas filhas, ficávamos horas tomando mate e o Jorge dando aulas teóricas e ensinando truques da montanha – o cara nasceu na montanha, numa família que começou o ski na argentina, sabendo tudo de neve, frio e roubadas nas altitudes… pois tudo isso foi feito absolutamente grátis. Ficamos amigos no primeiro minuto, e ele foi meu mestre sem cobrar um centavo.

Bueno, junto com toda esta gentileza e amizade, veio junto um plus – a mais: o Jorge me emprestou um par de skis Elan novinhos, última geração, a “ferrari” da época. Abandonei as duas bananas nas quais eu havia me equilibrado por uma semana, e fiz uma primeira descida com aqueles skis – algo que, por Deus, foi celestial. Trocaram a minha kombi por um Carrera 4.

Enfim, o Jorge Cejas me ensinou muita coisa – de vida, de ética, de neve e de ski; me fez gostar ainda mais da montanha e do esporte, me fez tentar melhorar sempre, a cada descida, até hoje (sem resultados… mas sou perseverante!); foi um dos melhores, mais técnicos, suaves e eficazes esquiadores que já ví (e ví milhares deles); e… dando aulas grátis para um jovem brasileiro, desconhecido, que esquiava legal e dizia amar a montanha, mostrou uma enorme devoção ao esporte e aos seus ideais mais elevados.

Pois o Jorge, por questões de família, foi morar no centro da Argentina, onde ele seria instrutor de… tênis – o cabra nasceu para o esporte.

Assim, não o ví mais… mas espero, algum dia, poder esquiar novamente com ele; que possamos entrar numa confeitaria de montanha com nossos netos, encher a cara de um caldo de verduras bem quente, e sair correndo para não perder muito tempo, a montanha espera.

Ah, e esquiando bem, é claro.

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