Camila Joner - O Encanto da Montanha - Neve - Esportes de neve - Turismo de neve

Chillán

Camila Joner – O Encanto da Montanha
Chillán

O Encanto da Montanha

Chegada em meio a muita chuva, frio, céu carregado e luminosidade de fim de tarde em plena hora do almoço. Cenário ideal para um filme de Hitchcock. Se o destino da primeira viagem do casal fosse Fernando de Noronha, a frustração seria imediata. Mas foi com um sorriso largo no rosto que Juliana, já com experiência anterior na neve, explicou: esse tempo assim promete muita neve na montanha. Oswaldo sorri em retorno, sem maior compreensão sobre o prazer de esquiar em neve powder, mas muito excitado com a idéia de fazer snowboard pela primeira vez.

A alegria ia aumentando à medida que o trem se afastava da cidade. A paisagem enquadrada pelas largas janelas de Terra Sur contrastava com o centro moderno de Santiago, onde ficaram hospedados na noite anterior. Mesmo com a chuva, o aspecto rural do caminho embelezava a viagem de maneira a parecer mais um passeio do que meramente um trajeto obrigatório para se chegar ao vulcão nevado.

Ao chegar a cidade de Chillan, pouco se enxergava devido a nebulosidade, mas os rumores escutados na estação de trem de que vinha muita neve pela frente, deixava um clima misto de apreensão e alegria entre os futuros esquiadores. O Grand Hotel Termas de Chillan só contribuía à felicidade já estabelecida. O Resort ao pé da montanha, digno de luas de mel, oferecia boa gastronomia, spa, atendimento impecável e muito conforto, além de proporcionar um intercambio cultural incrível, pois hospedava pessoas de todo o mundo e de faixas etárias diversas.

Já que não daria mais tempo de esquiar naquele dia, Juli e Valdo foram direto curtir a piscina aquecida com águas termais vulcânicas, depois uma sauninha, seguido por um bom vinho chileno à beira da lareira, só para começar a se acostumar com a mordomia.

Na manhã seguinte, a paisagem se modificara. As nuvens carregadas não eram mais de chuva e sim de uma grande quantidade de neve que caía incessante. Tudo agora estava branco, muito branco, branquíssimo…

Após ter os equipamentos alugados, aula feita, muitos tombos, muitas risadas, com o professor incentivando e elogiando sempre, os dois decidiram finalizar o “aquecimento” na base e partir para um nível mais alto da montanha. Tudo era novidade, principalmente para Oswaldo, desde subir na cadeirinha com a prancha de snow presa a um pé só, até o visual alvo das pistas de mais altitude, sem mais resquícios da linda vegetação que rodeava o Hotel. Foi um dia inteiro de muito snow em meio a nevasca e, depois uma noite romântica de céu estrelado. Eles estavam prestes a presenciar o famoso clássico. Havia de dar sol na manhã seguinte. E foi exatamente o que aconteceu: o astro rei raiou forte e a alegria não podia ser maior! O casal logo se apressou para tomar o café da manhã, alongar e partir para a neve.

Juliana e Oswaldo eram os primeiros na fila do lift, tamanha ansiedade para “snowboardiar” novamente. As pistas ainda intactas e “groovadas”, somadas ao céu azul brilhante levaram-os ao delírio. O jovem casal estava na melhor sintonia possível, estavam juntos há meses, nunca haviam sequer discutido e agora tinham se encontrado também na parceria do esporte. A manhã passou rápido e o nível de snow apresentado por Oswaldo crescia vertiginosamente, tanto que logo propôs a Juliana de subir, naquela mesma tarde, no teleférico que levava ao ponto mais alto da estação. Ela, que estava extremamente satisfeita com a curtição proporcionada pelas pistas verdes, riu da pretensão do namorado e negou na hora. Resolveram então tentar uma pista azul mais baixa, bem larga, no meio da montanha. Desceram com sucesso. Mas o medo da guria não a deixava arriscar subir mais. Logo o sol já ia se escondendo, indicando que mais uma sessão de mordomias vinha pela frente: relax total na hidro quentinha ao ar livre e, no jantar, vinho, lagosta e caviar…

Terceiro dia, muito sol novamente, cada músculo do corpo pedindo trégua, parecia impossível conseguir fazer qualquer esforço físico, mas a vontade de skiar era infinitamente maior. Já na cadeirinha do teleférico principal, a renovação do convite de Oswaldo para subir mais ao alto foi imediatamente negado por Juliana. Ele insistiu. Ela começava a se irritar com a insistência do snowbordista de primeira viagem. Iniciaram a manhã então na pista azul mais conhecida. Só os dois. Sem cair nenhuma vez. No lift, Valdo começou a falar sobre como deveria ser a qualidade das pistas bem laaaá de cima, a vista então, devia ser espetacular… A insistência do menino ia deixando Juliana a ponto de explodir, mas ela contava até quarenta e vinte, respirava fundo, olhava a bela paisagem que a cercava e voltava a estampar o sorriso no rosto. Desceram mais duas pistas diferentes, sempre ao som da insistência de Oswaldo. Ela propunha a ele ir sozinho, deixá-la lá onde ela estava feliz, mas não, ele queria a companhia de Juliana.

Pronto, a primeira discussão acontecera. Ela não acreditava, não naquele paraíso, isso não podia estar acontecendo. Ele não cansava de repetir que Juli tinha condições de ir além no esporte. Nela, o medo e a raiva se misturavam incontrolavelmente. Mas, como alguém tem que ceder, ela engoliu o pavor e sem falar nada, rumou em direção ao temido teleférico que levava ao alto da montanha. Oswaldo a seguiu mudo.

Minutos de um silêncio arrasador na cadeirinha. Juliana não podia estar mais tensa. Aquela subida parecia interminável. A medida que iam se afastando da base, o número de esquiadores ia diminuindo do campo de visão dos dois e o medo da menina crescendo. A paisagem diferente, com muitos fora de pista, ia encantando e atenuando o clima de guerra rapidamente instaurado.

De bocas abertas, eles abandonaram a cadeirinha. Era tudo incrível! Eles estavam no topo do vulcão, era possível ver até uma fumaçinha. O céu parecia com o dos Simpsons, com suas nuvens bem desenhadinhas em uma tela azul claro. Os poucos esquiadores passavam por eles com destreza e roupas estilosas. As pistas, mais íngremes, permitiam uma pequena prova do que seriam os foras de pista. E aquela neve, ah a neve… era divinamente fofa! O barulho que se ouvia era só o delicioso rasgar da prancha de snowboard num mar branco e sedoso. O prazer era indiscritível. Ao fim da primeira descida Juliana afroxou as presilhas e correu para os braços de Oswaldo, sussurrando ao pé de seu ouvido: obrigada por ser tão teimoso!

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